Há uma linha que nos define, um país que nos une, PORTUGAL.

Professor Doutor Engenheiro, Hermínio Duarteramos

Membro Honorário do Movimento Cívico Sinopse 

Curriculum 

Professor Jubilado 

Autor e Escritor

ÉTICA DA CIDADANIA (3)

Hermínio Duarteramos

Longevidade e distanciamento geracional

Lembro-me muito pouco dos primeiros anos de vida, quando os avós paternos ainda eram vivos, e somente aos sete anos de idade a minha avó materna, já viúva, conviveu comigo.

Habitávamos o mesmo monte, por herança de minha mãe, com portas de casa lado a lado, depois do passamento do avô, patriarca de barbas brancas do clã dos "algarvios" que ocupou grande parte do canto ribatejano da Arriça.

Eu fazia companhia noturna à avó, dormindo ambos na sua cama, às vezes também com  a prima Idalina no outro lado.

Na memória retenho a mulher idosa, vestida de preto com lenço na cabeça durante o dia e à noite com uma camisa branca até aos pés, desde a cabeleira grisalha à solta, empunhando um castiçal de porcelana com uma vela acesa, que alumiava o caminho para o quarto de dormir.

Depois conversávamos algum tempo, à luz trémula sobre a mesinha de cabeceira, acercadas coisas da vida, até à reza final e ao sopro que nos levava completamente às trevas do sono.


Na adolescência pouco convivi com pessoas idosas, pois a família que me rodeava era apenas constituída pelo meu irmão (mais velho dois anos) e as primas e primos mais novos que eu, além dos jovens adultos tios e tias.

Cada um construiu a sua casa no quinhão que lhes coubera pelas partilhas feitas à sorte, a partir das contas de meu pai e o consenso das tornas, conjugando a valorização do monte grande no alto das seis partes da terra retalhada, com mais ou menos baldios e vales férteis, a fim de contemplar equitativamente as quatro filhas e os dois filhos do avô que partira para sempre.

A verdade é que se distribuiu a igualdade de oportunidades entre todos, porque os restos do sistema feudal ainda existentes no século 20 estavam longe da desigualdade dos morgadios.


Cada herdeiro aproveitou o destino à sua maneira de agir, com paixão e coragem ou desejo e valentia, percorrendo as diferentes vias escolhidas na evolução da vida, melhor ou pior sucedidas.

Daí resultou alguma diferença comportamental entre os descendentes, segundo as opções tomadas ou o acaso encontrado na adaptação à modernidade dos costumes.

Em qualquer situação, a convivência dos adolescentes com os antepassados era bastante limitada naquele tempo, dada a relativa curta duração de vida das pessoas idosas (avós e pais).

Realmente, a minha avó viveu poucos anos com os netos, tendo eu tido o privilégio de escutar as estórias que ela contou ao serão, além da expressão dos medos quando ouvia trovoadas no céu ou das alegrias com o resplandecimento das colheitas nos campos semeados.


Hoje os jovens têm mais oportunidades de conviver com os avós e os pais enquanto humanos, pois a maior longevidade dos mais velhos está garantida pela assistência médica à saúde.

As pessoas duram mais anos que antigamente e os ambientes sociais propiciam encontros familiares com superior frequência (embora se diga que não, porque se ignora como era a vida isolada e poucos os festejos nas épocas recuadas).

Nestas circunstâncias, agora o distanciamento do passado reconstruído pelos idosos nos filhos e netos pode ser bastante mais relevante, se houver convívio entre as sucessivas gerações.

Além disso, o grave problema tecnológico das comunicações digitais limitarem as relações personalizadas ao vivo, olhos nos olhos, parece bastante atenuado por meio das vidas longas, desfrutadas pelos idosos ainda em condições normais de  convivência social.

Viver mais e melhor será um objetivo dos cidadãos preocupados com as diretrizes do futuro.

Em síntese, a maior duração dos parentes próximos possibilita que os jovens compensem a fraqueza do advento digital no distanciamento das gerações quanto à identidade da cidadania.

2018-11-21, Movimento Cívico Sinopse


ÉTICA DA CIDADANIA (2)

Hermínio Duarteramos

Distanciamento do passado e identidade individual

Em criança os meus pais falavam muito comigo e ao meu irmão, narravam estórias vividas, aquilo que tinham apreendido e os impressionara na sua vida natural, a tal ponto que gostavam de partilhar essas vivências com os descendentes (incluindo os netos, mais tarde).

Comecei a perceber que o meu pai era diferente da minha mãe, pois tivera aventuras nas noites de baile em povoações vizinhas e ela esperara no seu monte paterno, entre as irmãs mais velhas, o dia em que o brilho da luz íntima do amor lhe chegou aos olhos, quando viu a primeira vez o futuro marido.

Assim percebi, pelo que os meus pais me contaram.


Depois cresci a saber que ramos vieram do norte (das Beiras) para vigiar propriedades ribatejanas de ricos incógnitos (na fronteira da Branca) e que algarvios chegaram do sul (de Monchique) às terras altoalentejanas (Ponte de Sor) para adquirirem uma fazenda nuns foros ribatejanos (Arriça) acantonados nas fronteiras do Ribatejo com o Alentejo e a Extremadura.

Nasci na Branca, junto à estrada arenosa que ligava de carroça à cidade mais próxima (Coruche) o embrionário povoado onde cresci na primeira héptada da vida, para conduzir o garoto que fui à fazenda herdada dos avós maternos e desmatar terrenos bravios ou colher do suor, às torreiras do sol, o pão que o fez homem, juntamente com os esforços dos pais.

Aconteceu sempre em diálogo conjunto, nos bons e maus momentos, sempre a partilhar os mesmos princípios de interatividade na compatibilização das diferentes caraterísticas geracionais, durante a transição das tecnologias mecânica e elétrica para a eletrónica.


Desta maneira, o distanciamento que obtive no tempo aprofundou-se no passado vivido pelos progenitores, e então consegui a identidade própria que me singularizou nos agrupamentos comunitários em que vivi e me permitiu ser pioneiro nos afloramentos digitais.

Ao fim de quase uma dúzia de héptadas, posso afirmar, porque sinto isso da experiência feita, que a identidade de cada humano forma-se pelo distanciamento conseguido em relação ao passado, quer próprio quer dos familiares próximos (pais e avós).

Neste processo é essencial a formação concedida pelas narrativas da família próxima, em todas as oportunidades de convívio mútuo, para que a meta de partida na vida pessoal tenha atrás alguma distância e não constitua uma barreira à identificação do humano em crescimento.

O diálogo entre gerações manifesta-se importante, porque sem distanciamento relativamente ao passado não se chega à própria identidade.


Repare-se no contraste da atual relação dos filhos com a comunicação digital (internet, televisão, jogos de vídeo) e na ausência paterna ou materna devido às aceleradas mudanças societais.

As conversas entre pais e filhos ou netos são substituídas por desfiles virtuais e reais nas redes sociais, os humanos alheiam-se das presenças físicas e subordinam-se aos egoísmos experienciais de cada um, bem patentes à mesa das refeições e nos intervalos da subsistência.

Logicamente, será inevitável que os indivíduos irão enfraquecer a identidade de sangue.

Já na Bíblia Yahveh disse a Israel: «Olhai para Abraão, vosso pai, e reparai em Sara, que vos deu à luz» (Isaías, 51:1).

Na verdade, se os filhos não falarem com os pais, esquecem quem são; e, se os pais não conversarem sobre a memória do passado aos descendentes, os netos não chegam a atingir distâncias temporais que os identifiquem e engrandeçam.

Em síntese, a perspetiva histórica é importante para identificar quem somos como humanos, com vista a dinamizar a prática da cidadania.

2018-11-14, Movimento Cívico Sinopse



ÉTICA DA CIDADANIA (1)

Hermínio Duarteramos

Ética 4.0 na sociedade digital

É inegável que vivemos numa sociedade digital, embebida na sociedade analógica das tecnologias tradicionais, por meio do convívio entre humanos e máquinas, artefatos construídos pela mecânica, eletricidade e eletrónica, agora também com sistemas digitais, em interação dependente da algoritmia que modifica progressivamente as condições societais da vida.

Os problemas sociais intrincam com novas questões tecnológicas, a tal ponto que a ética evolui para caraterísticas diferentes, provocando algumas angústias de incompreensão.

E correm-se riscos graves de inadaptação social, se não se alertar para a adoção irrefutável dos fundamentos éticos da vida, aceitando estas referências comportamentais na esperança de um mundo melhor.


A moral define um conjunto de valores inalteráveis, cada um com índole absoluta, por determinação das grandes religiões monoteístas, como seja não matar ou não roubar.

Todavia, há muitos valores relativos, que dependem dos ambientes culturais, conforme as geografias e as vivências históricas dos povos, bastantes vezes em configurações de valores duais, como a monogamia (e não cobiçar a mulher do próximo) ou a poligamia (e o amor livre), cujas aceitações pela razão entram no enquadramento da ética, entre o bem e o mal.

Na realidade, os comportamentos racionais dos humanos são orientados por estes valores normativos dos consensos implícitos, determinados pelos usos e costumes aceites na sociedade em que se vive.


Por isso, a sociedade digital, que hoje mergulha nas pessoas todos os dias, condiciona os modos comportamentais conforme a ética vigente, caraterizada como "ética 4.0", devido à 4.ª revolução industrial dominante da sociedade.

De facto, os usos e costumes introduzidos pelos sistemas digitais, com os computadores e os telemóveis, mas não só (há jogos de vídeo, televisão, videovigilância, internet), alteram e vão modificar ainda mais os comportamentos individuais e sociais.

É claro, as novas gerações crescem sincronizadas com o crescimento tecnológico e as antigas gerações têm de se adaptar a esta evolução ética, referente à inovação dos usos e costumes aceites, para se integrarem bem no envelhecimento ativo.

Aliás, a maioria comportamental depende dos valores que são impregnados interiormente em cada humano pelo empirismo da existência, sob controlo das regras de ética emanadas da educação (familiar, escolar e social) ao longo da vida.

Diz-se que estamos sempre a aprender, e é verdade.


Tenho a certeza que os valores éticos vão mudar, e, nesta oportunidade, desejo que haja o senso de convergir para os respetivos valores universais.

Para isso, a sociedade humana terá de se comportar segundo princípios respeitáveis em todas as derivações possíveis, quer dizer, princípios revelados fundamentais à cidadania.

Desde logo, observa-se o progressivo desligamento familiar: os filhos pequenos convivem bastante cedo com aspetos terreanos (pela televisão ou telemóveis) muito distantes, no conteúdo e no espaço, em relação à realidade local, e os filhos maiores acedem mais a indivíduos estranhos que a conhecidos e amigos (através dos mesmos meios digitais), desfazendo laços de amizade por substituição, o que conduzirá a maiores isolamentos pessoais na idade adulta.

Trata-se de um simples exemplo de análise, que justifica múltiplas abordagens do conceito de ética 4.0, representativo da ética na sociedade digital em que hoje nos inserimos.

É o que faremos aqui no decurso do tempo, para fortalecer a intervenção cívica da cidadania.

2018-11-07, Movimento Cívico Sinopse

INTEGRAÇÃO EM BITOLA EUROPEIA

                                                                   Eng.  Hermínio Duarteramos

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                                                                         Japão Uma Ideia                      

                          Três apontamentos da história  Japonesa                          com reflexões sobre a política atual

Escutei Herpolis, hervatar da política de cidadania, numa palestra sobre a história do Japão, desde a era mítica dos jomon (14 000 aEC-300 aEC) até ao atual período Heisei (de 1989 aos dias correntes), a propósito dos portugueses que passaram pelas ilhas jipãs a comerciar produtos exóticos (sabão, espingardas, pólvora, tabaco, seda, porcelana) e a missionar a fé cristã, nos séculos 16 e 17, bem como um escritor do século 19 (Wenceslau de Morais), devoto da simbiose do panteísmo shinto com o budismo, além de outro escritor e embaixador do século 20 (Martins Janeira), que muito fez em honra da memória lusa entre os nipónicos.

Desse conjunto de dados da história japonesa extraí três apontamentos, que referem os mercadores portugueses e os jesuítas missionários (do padroado lusitano, incluindo navarros, castelhanos, gauleses e transalpinos), que aqui exponho brevemente em comparação com o que se passa no mundo de hoje.

Os portugueses estabeleceram contacto de 1.o grau com os japoneses em 1543, quando um junco chinês, que seguia de Malaca para Ningpo, na China, perdeu o rumo devido a uma terrível tempestade e foi acostar à ilhota Tanegashima, ao sul da grande ilha Kyushu.

No barco seguiam três mercadores portugueses, com os nomes António da Mota, Francisco Zeimo e António Peixoto (segundo o historiador Diogo Couto), os quais tiveram oportunidade de exibir a primeira arma de fogo no Japão, evidentemente com bastante agrado dos homens mais poderosos da região, pois adquiriram um novo meio de poder, capaz de dominar os adversários na luta pela sobrevivência (isto é, à custa da pobreza alheia e da fraqueza dos outros).

Em 1549, Francisco Xavier iniciou a missionação jesuíta, acompanhado pelo samurai Anjiro, convertido ao cristianismo em Goa e batizado com o nome Paulo de Santa Fé, a que se seguiu o comércio na rota das caravelas de Nagasaki para Macau, Malaca e Goa até Lisboa, e depois em sentido inverso.

Infelizmente, eclodiu uma feroz perseguição à doutrinação cristã, entre 1614 e 1638, que provocou cerca de 200 mil mártires entre os missionários e japoneses convertidos, incluindo muitas damas de alta linhagem.

«Ainda hoje ocorrem catástrofes humanas por colisões doutrinárias, sem margem de tolerância, como fazem os fanatismos, mas no corrente século 21 mal se compreende porque não se aprendeu nada com as eloquentes lições da história», assim terminou Herpolis o relato do relacionamento luso-jipão no século 17.

Também eu não entendo como o racionalismo coletivo permanece tão perto daquele primitivismo.

Porquê?

Somente a restauração imperial no século 19, após a extinção do feudalismo decadente, nas mãos da poderosa família Tokugawa, procedeu à modernização da sociedade japonesa, e decidiu assimilar os avanços civilizacionais do ocidente.

Com o fim da secular hegemonia dos shogunatos (que tinham andado de uma família para outra, desde os Minamoto à usurpação dos Hojo e até aos Ashiaga e à imposição dos Tokugawa), a liberdade de expansão do cristianismo no arquipélago nipónico regressou em 1858, e, decorridos dois anos, foi celebrado o Tratado de Paz, Amizade e Comércio entre Portugal e o Japão, que incluiu a abertura dos principais portos do Japão ao comércio dos portugueses, estabelecendo deveres, direitos e liberdades entre os cidadãos de ambos os países.

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«Porque é que Portugal não soube aproveitar as relações nipónicas?», conjeturou Herpolis, a pensar como o el-dourado brasileiro do século 19 apagou completamente qualquer intenção de privilegiar o oriente distante.

De facto, o impacto do Japão em Portugal manifestou-se insignificante, talvez por Macau se ter tornado o centro oriental de irradiação da luz lusitana, naturalmente fraca, comparada com a luminância do facho inglês ou da tocha americana.

Somos pequenos em território (património material), é certo, mas podemos ser grandes em altos cultivos (património imaterial), pelo descobrimento dos caminhos da inovação no paradigma revolucionário da sociedade digital, que faz a marcação da passagem civilizacional com o simbolismo científico dos padrões da holidade.

Quem se apercebe disso?

O século 20 levou à catástrofe do Tratado Tripartite dos japoneses com os nazistas alemães e os fascistas italianos, durante a 2.a Guerra Mundial (1940-1945), que terminou com a derrota do Império do Sol Nascente, depois dos aviões americanos terem lançado duas bombas nucleares por cima de Hiroshima e de Nagasaki.

A partir de 1945, o general MacArthur impôs uma Constituição democrática ao soberano derrotado Hiroito, que terá conduzido ao milagre económico japonês, em consequência da indústria nipónica desenvolver com inovação produtos comerciáveis em todo o mundo.

«Só poderemos ser bem sucedidos se agirmos com reflexões políticas que inovem e valorizem a sociedade», argumentou Herpolis, perante o estatismo do desenvolvimento português, agarrado ao modelo de "mão de obra barata", que favorece a miséria dos mais ricos.

Em boa verdade, percebo o grande alcance da política expansionista dos jipões, baseada na exportação de produtos consumidos com avidez pelo ocidente, e, quando olho para o atual revigoramento económico da "geringonça" na política portuguesa, confirmo o germe da mesma política correta: usar o conhecimento científico como motor da sociedade digital, implementada pela revolução tecnológica em curso.

Desta realidade trívia em que vivemos, num presente impregnado do magro passado a germinar um futuro mais nutrido, o pior são as consequentes mutações do paradigma civilizacional, que não se podem (nem devem) menosprezar na evolução da humanidade.

Se dúvidas houvesse, agora nenhuma persiste: o movimento trívio tem de inovar a política do país, nem que seja para acompanhar o voo dos outros mais avançados.

No entanto, com o nosso passado recente, será que no tempo presente sabemos predizer o futuro?

Prof. Doutor Eng. Hermínio Duarteramos



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